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Preço do papel dispara e põe jornais em risco

Preço das matérias-primas, da energia e do transporte encarece produto final. Crise no setor dura há meses e pode agravar-se em 2022.
Vanessa Fidalgo 13 de Novembro de 2021 às 09:40
Se houver rutura nos stocks de papel de jornal, a imprensa portuguesa  poderá ver as suas tiragens limitadas
Se houver rutura nos stocks de papel de jornal, a imprensa portuguesa poderá ver as suas tiragens limitadas FOTO: João Cortesão
O aumento do preço das matérias-primas e da energia e problemas de distribuição fizeram disparar o preço da tonelada do papel de jornal e revista em 2021. Há empresas do setor a pagar cada tonelada de papel a um preço 50 a 72% mais elevado, o que poderá levar ao aumento do preço das publicações na banca. Ao custo, junta-se a escassez do produto, que leva as empresas do setor a temer mesmo a rutura de stocks nos próximos meses .

O problema começa nas próprias fábricas de papel, que “chegaram a parar máquinas durante a pandemia, por causa da quebra na procura. Por outro lado, algumas fábricas deixaram de produzir papel de jornal para produzir cartão para embalagens - estimuladas pelo aumento do comércio eletrónico”, explicou fonte do setor. Todavia, com a recuperação súbita do consumo em 2021, as fábricas de papel depararam-se “com a escassez de matéria-prima, com preços da energia e de alguns produtos químicos necessários para o fabrico de papel muito mais elevados e com problemas na própria distribuição”, acrescentou.

A indústria está a ser fortemente penalizada pela crise no transporte marítimo. As normais rotas de abastecimento alteraram-se com a pandemia (pela necessidade de entregar milhões de máscaras na Europa e na América e a demanda dos consumidores, que fechados em casa, ‘vingaram-se’ nas compras à distância). Por outro lado, os armadores aproveitaram a paragem dos portos para renovar as frotas, que não ficaram prontas a tempo da retoma comercial. O resultado são milhares de contentores depositados nos portos, sem forma de chegarem ao destino. “Neste momento, além do elevado custo que temos de suportar, estamos a ser confrontados com uma possível rutura de stocks”, alerta a mesma fonte. No fim desta cadeia está a imprensa escrita, em risco de ver os seus preços aumentar se os custos do papel se mantiverem altos ou de ter de reduzir o número de páginas das suas publicações. “A situação é inédita, está fora de controlo e não há luz ao fundo do túnel quanto ao fim desta crise”, alerta a editora.

João Palmeiro, presidente Ass. Portuguesa de Imprensa

"Situação é muito grave"
CM – Qual a gravidade do problema para a imprensa portuguesa?
João Palmeiro – É muito grave. Por duas razões: o aumento do preço que pode tornar-se incomportável para as empresas e por estarmos dependentes de um sistema logístico de comportamento imprevisível. Portugal consome uma quantidade de papel de jornal irrelevante em termos globais (entre 80 mil e 90 mil toneladas) e tem pouco peso junto dos fornecedores.

- O leitor vai ter de pagar mais?
– Se a situação não se resolver, será inevitável.

–O que acontece se houver uma rutura de stocks?
– A imprensa pode não conseguir publicar ou pode ter de reduzir o número de páginas, o que vai gerar uma quebra na relação de confiança com os leitores, algo que nunca deveria acontecer numa democracia e que, se durar alguns meses, pode ser irrecuperável.
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