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Correio da Manhã

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“Sofro muito. É com muita dificuldade que chego ao caminho” (COM VÍDEO)

O eterno ‘Rei Lear’ está fora do mercado das contratações. Exclusivo da TVI por mais dois anos, o experiente actor Ruy de Carvalho fala de si, da carreira de 64 anos e de política.
24 de Dezembro de 2010 às 00:00
“Sofro muito. É com muita dificuldade que chego ao caminho” (COM VÍDEO)
“Sofro muito. É com muita dificuldade que chego ao caminho” (COM VÍDEO) FOTO: Sérgio Lemos

- Como tem acompanhado este fenómeno das transferências de actores TVI/SIC?

Vejo que acenaram com coisas melhores e eles querem mudar. Eu estou na minha casa, naquela onde estou em exclusividade.

 

- Mas convidaram-no?

Não me acenaram com nada, mas também não estou livre. Assinei contrato por mais dois anos há pouco tempo, antes destas mudanças todas.

 

- Então, se o convidassem não ia?

Fui para NBP (hoje Plural), através do António Parente, o grande nome da constrição da novela em Portugal. Ele saiu e eu fiquei. Agora não aceito desafios porque tenho um contrato. Quando me ‘descontratarem' que me convidem. Se eu ainda poder trabalhar (risos). Se ainda puder ser actor, sou.

- A TVI ainda é uma escola de actores como se diz?

Ainda é. Há muita gente nova com valor. Alguns vão ser grandes vedetas daqui a alguns anos. Isto leva um tempinho. Há gente com muita qualidade e apaixonada pela arte de representar. Gosto que a minha profissão esteja repleta de valores.

- Há algum que pode vir a ser um Ruy de Carvalho'?

Há vários. Nós temos é que cumprir sempre e fazer o melhor possível para manter viva aquela chama que nos ilumina.

 

- Os jovens pedem ajuda aos veteranos?

Normalmente conversamos. As pessoas não gostam muito de pedir ajuda, gostam mais de conversar sobre.

 

- Que tipo de conversas?

Às vezes encontrar uma inflexão mais certa; encontrar uma posição mais certa dentro do texto que temos. De fora vemos sempre melhor e podemos ajudar, por isso é que não deve haver o convencimento de que somos capazes de tudo. A oposição diz muitas coisas que depois não faz quando está no poder, não é? Pois, é a mesma coisa.

 

- A novela é o parente pobre da representação?

Não. Às vezes revejo novelas antigas e acho que faziam tão bem quanto hoje. Nós é que temos a mania de que não somos bons. Há muito bons actores em Portugal.

 

- A novela ‘Meu Amor', da TVI, ganhou um Emmy. Como olha para isto?

Acho muito bem. Foi a primeira a ganhar, porque concorreu. Se calhar tivemos medo de concorrer mais vezes, porque há outras novelas que podiam concorrer. Estive a ver algumas reposições que mereciam esse reconhecimento.

 

- Como a ‘Vila Faia', por exemplo?

Muito boa, também podia ter sido uma vencedora de um Emmy. Mas hoje os autores e directores e actores podem concorrer.

- É uma forma de chamar a atenção para os bons produtos nacionais?

São tão bons como o Ronaldo. Ele é muito bom, mas a fama que ele tem, também pode ser a de actores. Tal como os americanos que são ídolos em Portugal.

 

- Equacionou uma carreira internacional?

Não. Eu quero ser bom é na minha terra, em Portugal. E ir lá fora mostrar o trabalho, agora emigrar como actor não quero.

 

- Não se considera um ídolo?

Por acaso tratam-me bem (risos), mas não me considero um ídolo. Poderei ser uma referência. Faço por isso. Como cidadão e como actor.

- Porquê a representação?

Porquê a arte de representar? É uma coisa que se descobre. Muita gente tem qualidades para representar. Os médicos, os advogados, jornalistas, todos representam. E há alguns que escolhem essa forma de viver. Querem sair deles várias vezes. Nós vestimos vários fatos, várias formas de estar na vida.

 

- Quando sentiu esse apelo?

Tinha perto de oito anos. Um dia descobri que tinha jeitinho. É claro que depois vai-se compondo, vai-se aprendendo toda a técnica e tudo junto, às vezes, dá talento. Outras vezes dá muito talento e génio. Há actores que têm génio, são geniais.

 

- E o Ruy é um génio?

Não, não, eu sofro muito. Isto não sai assim espontaneamente. É com muita dificuldade que eu chego ao caminho. E a profissão não é fácil. É uma vida que muita gente nem calcula, que tem muitos momentos maus e em Portugal ainda mais porque não há tantas oficinas como seria necessário para haver muito teatro. Nem o público vai muito porque diz que é muito caro. Mas não é preciso ir todos os dias ao teatro, basta ir quatro vezes por ano. O teatro é uma indústria de qualidade, como tudo o que seja espectáculo e arte. São riquezas que os seres humanos têm.

 

- Sente todas as personagens, do vilão ao bonzinho?

Procuro encontrar em mim aquela possibilidade de ser um vilão. Mas, infelizmente, não me dão muitos vilões, não sei porquê. Acham que tenho cara de bonzinho. Neste momento tenho uma colega que está a fazer de má, a Fernanda Serrano, uma belíssima actriz.

 

- É importante a reacção do público aos seus papéis?

Tenho reacções do público extraordinárias. Sinto que sou estimado e isso é uma coisa que me dá um grande prazer. Vou a qualquer parte do País e até lá fora e tratam-me bem, e beijam-me muito. As senhoras e os homens abraçam-me. E dizem-me coisas bonitas e gosto de ouvir. Não vou dizer que não. Mas não procuro isso. Não ando na rua a mostrar quem sou. É uma honra acreditarem em mim.

 

- Lembra-se da primeira peça em que entrou?

Sim, era a ‘História da Carochinha', era ardina. Essa figura muito bonita. Tive um pelotão de ardinas quando fui militar, a quem dava instrução. Muitos ficaram meus amigos. Um dava-me sempre o jornal de graça.

 

- Foi militar? Entrou no Conservatório Nacional antes?

Fui miliciano de cavalaria. Na altura já tinha o curso do Conservatório, só me faltava a cadeira de arte de representar, que fiz depois da tropa.

 

- Começou no teatro e depois fez cinema?

Não fiz muito cinema. Não é que não me contactassem, mas por vezes não podia. Trabalhei com vários realizadores, entre eles o Manoel de Oliveira. Comecei a fazer cinema com 20 anos. Fiz muito teatro radiofónico, que é uma forma que gosto muito e é muito bom para nós, actores, em que representamos com a voz.

 

- Terminou o curso com 18?

Dezoito e mais alguma coisa (risos). Não foi mau. Mas nessa altura sabia ainda pouco da arte de representar. Tive foi a sorte de trabalhar com o Ribeirinho no teatro da Mocidade Portuguesa, tinha 15 anos, e comecei logo com um grande mestre do teatro, que além de grande actor era um grande director de actores. Ele sabia muito bem lidar com os jovens. Um bocado agressivo, à bruta, mas fazia de nós alguma coisa. Aprendíamos mesmo.

 

- O Ruy também fez direcção de actores. Gostou da experiência?

Fiz uma vez e não gostei. Nunca mais fiz. Sofre-se muito e é exigida uma grande responsabilidade a quem dirige. A pessoa que mais tem de saber é o encenador, porque tem de ter conversas com os actores, com os músicos, com os coreógrafos, com os técnicos... com todos os que trabalham à volta. Todos têm de estar de acordo com a ideia do encenador. Tem de ser uma pessoa muito competente e psicólogo.

 

- Era muito stress?

Era muito ‘stressante' para mim. Foi de 1962 para 1963, no Teatro Experimental do Porto em que fui director. Eu prefiro ser dirigido, desde que saibam claro. Não é diletantes. Têm de ser pessoas que saibam. Dou um exemplo, há um jovem, o João Lourenço, muito mais novo do que eu - praticamente andou debaixo da minha asa quando era actor - por quem tenho um respeito enorme enquanto encenador. E outros: como o João Mota. São pessoas que percebem muito.

 

- Esteve ligado ao Teatro D. Maria II alguns anos?!

Estive ligado na fase depois do incêndio, mas trabalhei lá antes com a Companhia Rey Colaço, mas depois sai para o Teatro do Povo com o Ribeirinho, onde fazíamos teatro itinerante. Trabalhávamos muito.

 

- Gostou da fase do teatro itinerante?

Gosto de todas as fases em que se faça teatro, mas sim gostei muito e fazíamos muito teatro ao ar livre. Trabalhávamos em campos de futebol, como no campo de Santa Margarida onde havia militares. Dez mil homens a assistir ao espectáculo, era muito interessante.

 

- E teve sempre casa cheia?

Ultimamente tenho sempre casa cheia. As últimas peças que fiz estavam sempre esgotadas. Mas não era só por mim, era pela companhia, como a Eunice Münoz e outros colegas muito importantes. Mas já trabalhei para dois.

 

- Para dois espectadores?

Sim. É até uma história muito engraçada. Eu estava na Academia de Santo Amaro. A peça era  ‘O Santo e a Porca', eu fazia o Avarento. Um dia estávamos a fazer uma matiné e um colega veio dizer que só estavam duas pessoas. E eu disse: nós estamos prontos. E fizemos cinco panos com duas pessoas a bater palmas. E o palco subia e descia. Passados muitos anos descobrimos que essas duas pessoas eram os pais do Abel Dias, o fotógrafo.

 

- Para si foi igual representar para duas pessoas ou para um teatro cheio?!

Foi igual. Duas pessoas no público não tem nada a ver com ensaio, tem a ver com o espectáculo. E nós cumprimos maravilhosamente. Tanto eu como os meus colegas. Alguns já cá não estão, como o Canto e Castro ou a Graça Vitória. Já morreram quase todos.

 

- Foi uma situação inusitada?!

Tínhamos espectáculos todos os dias, mas as pessoas diziam que era muito longe ir à Academia de Santo Amaro. Para mim é que era que tinha de ir todos os dias (risos), agora para ir lá uma vez. As pessoas inventam desculpas muito grandes para não ir ao teatro. E por isso muitos teatros do País fecharam. Houve um teatro que esteve fechado muitos anos e eu quando passava por lá até me vinham as lágrimas aos olhos. Era o teatro que estava na estrada, na Mealhada, era até uma oportunidade de ir até lá, de passagem, e depois seguir para Lisboa. Mas há muitos teatros em Portugal e alguns já recuperados pelas câmaras. Hà um teatro em Vila Real de Trás os Montes, que é a terra do meu pai, maravilhoso. Ainda por cima a rua tem o meu nome, que é um grande orgulho.

 

- E já lá representou?

 

Não, nunca. Vi espectáculos. Mas o teatro é óptimo, o palco tem duas hipóteses, tem espaço de concertos, biblioteca. Muito bom.

 

- Portanto, o seu nome está bem guardado.

A rua está bem entregue (risos).

 

- Gostava de participar em peças itinerantes?

Ainda há três anos fiz uma peça itinerante do marido da minha filha Paula, que é jornalista na Antena 2. A peça chamava-se ‘O Palhaço de Mim Mesmo'. Andei algum tempo pelo país e foi muito bom.

 

- Falou em teatro radiofónico, que já não se faz...

Infelizmente não. As pessoas acham que não vale a pena, e no entanto, nós actores, andamos pelo País e perguntam quando é que volta a haver teatro na rádio? E na televisão havia teatro das comédias, programas sobre teatro e divulgação de escritores. Nós temos obras extraordinárias que podem ser postas na rádio. Há textos que são caros para pôr em cena, mas que podem ser ditos. Porque há leituras representadas. Após o 25 de Abril fez-se algo que prejudicou muito o teatro e a forma do teatro singrar com os seus profissionais que foi ‘instituir' que ‘agora os actores fazem tudo'. Não.  Há técnicos para fazer outras coisas, o actor tem de representar.

 

- Ainda existem algumas profissões antigas ligadas ao teatro?

Muitas já não existem. Nós quisermos substituir-nos e assim perde-se emprego.

 

- A TV tirou muitos espectadores ao teatro?

Não. Em parte nenhuma do Mundo tira. Se calhar até ajuda muito. As pessoas querem ver teatro, não tão caro.

 

- A peça ‘Rei Lear' marcou a sua carreira?

Sim, mas não fui eu que pedi para fazer. Lembraram-se que eu podia fazer. E depois autorizaram que fizesse. Nem toda a gente pode fazer Shakespeare. Mas há várias peças que me marcaram muito, uma  delas foi o ‘Render dos Heróis', do José Cardoso Pires.

 

- Porquê esta peça?

Primeiro porque tinha a ver com Portugal, com a forma de estar do nosso povo. Eu fazia um cego que só via quando queria. Que é como o português (risos). A guerra dos liberais e dos miguelistas e o povo é que se lixa sempre. A peça era muito bem feita. Foi um êxito enorme artístico. Não económico.

 

- O Ruy é um talento?

Não, um talento não. Admito que tenho jeito e alguma experiência e isso dá a tal coisa parecida com talento. Mas talento genial tem a Eunice Muñoz. Eu tenho jeito. Isto é tudo efémero.

 

- Em palco já fez tudo?

Tudo. Já dancei, já cantei, quase que fiz trapézio (risos).

 

- E fez algumas pelas do La Feria. Gosta do formato musical?

Gosto. Fiz revista, fiz teatro musicado com a Laura Alves... Fiz com a Florbela Queirós o ‘Aniversário da Tartaruga', em que dancei e cantei e mudava de fato 36 vezes (risos). É uma dinâmica que talvez me tenha dado muita preparação de ginasta. Quando me perguntam se faço ginástica eu digo que sim. Quando represento pratico muita (risos). Não queiram saber o que praticava no ‘Rei Lear'. Só a capa pesava 35 quilos. O fato quase o dobro. Esse peso é de alteres.

 

- O que falta na representação em Portugal?

Fundamentalmente falta público, porque o público é que nos modela, nos faz avançar, ser melhores. E de vez em quando dizer ‘não gosto'. Precisamos desse apoio, para haver capacidade de trabalhar na qualidade e não na oportunidade de pensar no fim do mês.

 

PERFIL

Ruy Alberto Rebelo Pires de Carvalho, 83 anos, nasceu em Lisboa. É avô e tem dois filhos: João Carvalho, actor, e Paula Carvalho, jornalista. Actor de referência em Portugal, do teatro ao cinema e na TV, conta com dois Globos de Ouro e inúmeros prémios. É comendador da Ordem de São Tiago da Espada. Benfiquista assumido, diz contudo ser do Sport Lisboa e Castelo Branco, porque vive una Covilhã. Ruy de Carvalho acredita que o ‘espírito não tem rugas' e que as "pessoas são sempre jovens se o quiserem". "Eu fico nos 18 anos que é a idade da revolução interna. 

POLÍTICA

- Apoiou a candidatura de Santana Lopes, porquê?

Porque gosto muito dele e conheço-o desde pequeno. E é uma pessoa competente. Foi muito mal estimado e hoje é uma pessoa que tem dificuldade em progredir pelo passado que lhe arranjaram. Gosta muito de mulheres. Uma coisa que muitos não gostam.

- Voltava a apoiar?

Não. Agora não, porque não quero que ele sofra mais. Também já apoiei o Carmona.

- Apoia partidos?

Não tenho partido. Apoio pessoas. Tenho tendência por um partido, mas não apoio nenhum.

- Acredita em projectos pessoais?

Na sinceridade das pessoas, sobretudo. Não nas fantasias, nas loucuras. Vou pelas coisas que são coerentes. Sou um moderado. Lucas Pires disse: "A cultura não tem cor, quando é boa, venha de onde vier, é sempre recebida de braços abertos, é a arca do tesouro dos povos". 

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