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Ansiedade: como a Ciência trata a doença do século

Entre fobias, stress pós-traumático ou ataques de pânico, Portugal é o país europeu com maior prevalência nas perturbações de ansiedade.
Por Sara Capelo 22 de Outubro de 2019 às 11:01
Ansiedade
Ansiedade
Jorge Gouveia não vai ao cinema há anos. O barulho das salas escuras faz-lhe "confusão à cabeça" e lembra-lhe "aquilo". Vive atento a qualquer ruído, uma autodefesa que desenvolveu quando estava "lá". Passa muitos dias em casa, mudo. "A mulher está lá na vida dela e eu estou num canto sentado, com a cassete na cabeça a pensar naquilo." Ainda tem pesadelos à noite, atira almofadas "pelo ar" e grita. "Aquilo" e "lá" é a guerra colonial, onde esteve dois anos e de onde regressou em 1969. "Ninguém se preocupou se eu vinha tuberculoso, com problemas. Despacharam -nos", lamenta-se. Nos 25 anos seguintes, sentiu "qualquer coisa", indefinível.
"Eu falava sempre da mesma coisa, da guerra." Ao ouvi-lo uma e outra e outra vez, a psiquiatra da extensão do Centro de Saúde de Odivelas encaminhou-o para uma consulta no Hospital Júlio de Matos. Só em 1994 Jorge Gouveia foi finalmente diagnosticado com stress pós-traumático, uma das patologias categorizadas como perturbação de ansiedade.

Com 73 anos, dirige a Associação Apoiar, onde no ano passado ele e outros 200 ex-combatentes (e 80 familiares) receberam apoio médico, psiquiátrico e psicológico. São marcadas mais consultas quando os utentes ainda não conseguem dormir, têm pensamentos intrusivos sobre a guerra, estão mais depressivos, isolam-se, são agressivos, lista o psicólogo Afonso Paixão. Jorge Gouveia toma medicação e faz psicoterapia com periodicidade variável. Depende da fase em que está. É uma combinação terapêutica possível para a ansiedade. Mas não a única.

O estudo epidemiológico nacional de saúde mental, realizado pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova para a Organização Mundial de Saúde, calcula que, em Portugal, 2,3% da população tenha stress pós -traumático e que 16,5% sofra de uma qualquer perturbação de ansiedade, que inclui ainda ansiedade generalizada, fobias (da social às específicas, como o medo de animais), pânico ou a perturbação obsessivo-compulsiva. É a doença mental com maior prevalência no País e sem igual na Europa – a Irlanda do Norte está num distante segundo lugar, com 14,6%. O coordenador do estudo, José Caldas de Almeida, arrisca uma explicação: "Poderá haver factores de maior vulnerabilidade genética (seria uma hipótese, mas não tenho nada que prove isso) ou factores culturais que acentuem esses traços ansiosos e fóbicos. Somos tipos tímidos, ansiosos, queremos muito agradar aos outros."

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