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O testemunho emocionante de uma mãe com um filho autista

Quando a vida muda de forma drástica podemos passar o resto dos nossos dias a carpir a perda, os sonhos desfeitos. Ou podemos redefinir a viagem, redesenhar o mapa e tomar a estrada rumo a novos sonhos. Joana Mateus* recorda como recebeu o diagnóstico de autismo do filho e explica como refez o seu caminho. Um testemunho para ler no Dia Mundial de Conscientização do Autismo 2021, que se assinala esta sexta-feira, 2 de abril.
2 de Abril de 2021 às 09:00
FOTO: Pexels

O que é um ano? O que são 365 dias? São estações, folhas gordas e verdes, depois douradas, seguidas de ramos nus e despidos. São aniversários, Páscoas, Natais, correndo ao sabor do tempo com a cadência despreocupada de um calendário largando, também, as suas folhas em direção a mais um ano cumprido. Exceto o que passou que foi tudo isso e muito mais.

O ano de 2017 foi o do meu "nascimento" como mãe quando o Thomas, o meu filho de então três anos e meio, recebeu o diagnóstico de autismo. Não foi um diagnóstico inesperado. O Thomas nasceu forte, ágil e saudável, em 2014. Mas os anos passaram e as palavras não surgiam. As birras jorravam inesperadas e longas, imbuídas de um desespero pouco comum. O sono nunca se cumpria a noite toda, mesmo com rotinas e com especialistas. A nossa rotina de pais passou a ser feita de turnos, para o outro poder dormir. As saídas faziam-se sempre de carrinho porque a noção do perigo na estrada estava simplesmente ausente. Dar a mão prazenteiramente não era uma opção, pois se o Thomas estava livre era sempre para correr sem nunca parar. Os nossos olhos de pais nunca baixavam a guarda enquanto ele corria, rebolava, saltava nos sofás ou abria os joelhos, em sangue, sempre sem chorar pois nada o parecia magoar. O seu pequeno nariz estava sempre enfiado na fonte de um cheiro particular como se o quisesse absorver todo, como se a sua vida dependesse disso. Os seus dedos ondulavam em frente aos olhos em movimentos constantes e, quando o seu nome era chamado, a cabeça raramente virava para responder. Os brinquedos e os peluches acumulados ? "para ver se deste ele gosta" - permaneciam intocados debaixo de uma fina camada de pó e de angústia. "E hoje, esteve bem? Brincou com alguém?" A frase era repetida diariamente pelo fim da tarde quando o íamos buscar à creche. "Esteve bem, sim, a brincar sozinho. Mas sabe como é, as crianças levam o seu tempo. Não se preocupe, eles crescem ao seu ritmo."

Eles crescem ao seu ritmo, sim. Mas o ritmo do Thomas era outro. O ritmo do Thomas eram horas passadas à frente do YouTube com um fio de esparguete seco a servir de arco de violino, a observar e a imitar orquestras a tocarem concertos inteiros. Com um ano e meio, o fio de esparguete pontuava com precisão as Quatro Estações, de Vivaldi, ou os concertos de Brandenburgo, de Bach. As tardes podiam voar e o Thomas permanecia, entoando a melodia e mais tarde sem ela, agitando o fio de esparguete no ar à cadência da música ausente, mas presente nos seus ouvidos. As palavras não vinham, as outras crianças eram adereços toleráveis nas horas dos seus longos dias, mas outras linguagens emergiam. O Thomas não sabia pedir sumo, mas debitava frases completas ouvidas em desenhos animados e sabia os concertos de música clássica de cor. E nós, que os conhecíamos também, entrávamos assim no nosso espaço privado de entendimento e esperávamos. Esperávamos pelo dia em que seríamos ouvidos e validados. O dia em que alguém nos ia finalmente dizer que o ritmo do Thomas não era o de mais ninguém. 

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